terça-feira, 19 de março de 2013


Informações sobre o blog e as postagens:

         Este Blog foi criado pela Licencianda Luana Góes Rodrigues do curso de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como resposta a proposta de desenvolvimento de um material e uma atividade didáticas para avaliação da disciplina de Didática Especial da História II.
  
O presente material didático foi criado a fim de suprir uma necessidade de aprofundamento sobre o tema dos conflitos árabe-israelenses. Durante minha experiência escolar, percebi que em geral os professores tem um conhecimento superficial sobre o assunto e dificuldades em como trabalhar com esse tema tão amplo e atual em sala de aula.

A minha proposta foi produzir um material que viesse a complementar o livro didático, no sentido de não trazer uma visão factual do conflito, mas uma visão mais problematizada centrada na temática da identidade coletiva. 

Por motivos técnicos do servidor do blog, tive que postar cada parte do material e da atividade separadamente. 

Luana Góes Rodrigues 
Graduanda do curso de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Texto I - Breve histórico (Parte 1)
O conflito árabe-israelense se originou de diversas razões. O principal deles é em relação ao território: israelenses e palestinos lutam para assegurar terras sobre as quais, segundo eles, têm direito. Outra razão diz respeito à cultura e à imposição de valores ocidentais às culturas orientais. Também há o fator político-econômico, as grandes potências desejam assentar sua influência na região, que é rica devido a existência abundante do petróleo.
A tensão entre árabes e judeus iniciou-se ainda antes da criação do Estado de Israel. Os judeus por terem sido expulsos da Palestina pelos romanos já no século I da Era Cristã, acalentam o sonho de retornar à "Terra Prometida". Contudo, o território, durante sua ausência, foi ocupado pelos povos árabes que, igualmente, sentem-se no direito de nele permanecer de modo autônomo.
Durante o século XIX, devido ao domínio britânico sobre a região, os ingleses permitiram a compra de terras na Palestina por ricos judeus que começaram a reocupar a região. Essa migração de judeus para a Jerusalém chamou-se Sionismo, em referência à Colina de Sion, que fica nessa cidade.
Na primeira metade do século XX, os ingleses se comprometeram a auxiliar os judeus a constituir um Estado livre e independente em território palestino, dessa forma, enfraquecendo os árabes e conquistando vantagens econômicas na região. Durante os anos 1930 e 1940, intensificou-se consideravelmente a imigração judaica para a região.
Texto I - Breve Histórico - Parte 2


Devido ao Holocausto, a opinião pública ficou sensibilizada com os sofrimentos dos judeus e concordou com a criação de um Estado judeu na Palestina. Logo a ONU estabeleceu a criação do Estado de Israel com o apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, interessados em estabelecer um aliado na região. Os palestinos, por sua vez, também almejavam a criação de um Estado independente e, para isso, contavam com o apoio dos países árabes.
Com a retirada das tropas britânicas que ocupavam a região, começou, em 1948, uma guerra entre Israel e a Liga Árabe, criada em 1945 e que reunia Estados Árabes que procuravam defender a independência e a integridade de seus membros. A guerra foi liderada pela Jordânia e pelo Egito. Israel venceu o conflito e ocupou áreas reservadas aos palestinos. Para defender a luta palestina no sentido da criação de um Estado autônomo, foi criada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em 1964, tendo como líder Iasser Arafat. Nas fileiras da OLP, surgiu o Al Fatah, braço armado da organização que prega a luta armada e o terrorismo para destruir Israel.
Na década de 1970, quando o presidente Anuar Sadat assumiu o cargo no Egito, tomou uma postura de distanciamento da União Soviética e de aproximação dos Estados Unidos. Desse período resultaram as conversações de paz entre egípcios e israelenses que foram no acordo de Camp David, em 1979. Todavia, o acordo estabelecido não agradou suficientemente nenhum dos dois lados e o conflito apesar do cessar-fogo, perdurou.
Em 1980, as negociações sobre o conflito não avançaram. De um lado, os árabes iniciam a Intifada, rebelião popular em Gaza, cujo estopim foi o atropelamento e morte de quatro palestinos por um caminhão do exército israelense, em 1987. Adolescentes, munidos de paus e pedras, enfrentam, nas ruas, os soldados de Israel e o levante se alastra. A repressão israelense foi brutal. Desde então, os choques entre palestinos e colonos nas áreas de ocupação israelense têm sido frequentes e são interrompidos por períodos de paz, ocasionados pelo cessar-fogo, mas nada definitivo, já que o conflito perdura e o grande obstáculo nesse momento é decidir sobre a situação de Jerusalém, cidade sagrada tanto para judeus quanto para muçulmanos.

Texto II - A questão da identidade coletiva nos conflitos árabe-israelenses

Ao analisar os conflitos percebemos que os dois grupos que se enfrentam, tem uma identidade coletiva marcante e bem diferente uma da outra, e que esse processo de formação de uma identidade coletiva está intrinsecamente ligado ao próprio conflito, ou seja, o conflito serviu como justificativa, como “mola propulsora” da afirmação dessas identidades coletivas, mas afinal o que é identidade coletiva?

Samuel Vilela, o autor do estudo “O papel da identidade coletiva e das questões político ideológicas no insucesso do processo de paz Israel-Palestina: uma abordagem psicossocial” que serviu de base para esse texto, define identidade coletiva da seguinte forma:

“A identidade coletiva envolve um conjunto de características centrais de um grupo, caracterizando-o e diferenciando-o dos demais. No caso de um povo ou nação, a interação social tem lugar num contexto cultural. A construção de significados compartilhados ou simbólicos tem por referência, a cultura de um grupo e está ligada ao pensamento coletivo, através da língua ou linguagem, das crenças coletivas, dos símbolos coletivos e das ideologias que se organizam em torno de determinados valores. Este contexto cultural consiste, portanto, num sistema de convicções, largamente aceitas pelo grupo e suposições, que são transmitidas de uma geração para a seguinte.”( VILELA,S.2011.p.19 )

Logo, podemos conceituar identidade coletiva por um sistema de convicções, símbolos, crenças e ideologias que são compartilhadas por um grupo, que caracterizam-no e o diferencia dos demais.

O conflito árabe-palestino é caracterizado pela existência de duas identidades coletivas marcantes e bem diferentes uma da outra, da identidade coletiva palestina, e da identidade coletiva israelense, e dentro de cada uma dessas identidades coletivas, a palestina e a israelense, existem vários grupos com diferentes linhas de ação (pacifistas ou violentas), que lutam pelo mesmo objetivo, ou seja, um território. Ambos os grupos se apropriam de discursos religiosos e nacionalistas para justificar seu direito a terra e sua ação política.

A identidade coletiva israelense contemporânea resulta de um longo processo de afirmação da religião judaica.

Desde muito cedo, que a religião foi um fator que permitiu diferenciar este povo dos demais povos vizinhos, o que, portanto, constitui a religião judaica como elemento primário no processo de formação dessa identidade coletiva. A identidade coletiva dos judeus, que durante um longo período de tempo, tendeu, a ser materializada enquanto uma religião, e não, enquanto nação encontrou no movimento sionista a sua primeira forma de se organizar e manifestar politicamente. O movimento sionista, que teve a sua origem na década de cinquenta do século XIX e tinha como premissa, o regresso dos judeus ao Sião, área que hoje equivale a Jerusalém e a criação de um Estado judaico, era essencialmente um movimento judaico-europeu. No entanto, convém ressalvar, que no território onde atualmente se encontra o Estado de Israel sempre existiu uma comunidade judaica, assim como sempre se registraram fluxos migratórios de regresso a esse território.” (VILELA,S.2011.p.23)

A identidade palestina, dos árabes que vivem na região de Jerusálem e adjacências, passa a se fortalecer em resposta a chegada de judeus a região, no intuito de demarcar as diferenças entre os dois povos e o discurso de proteção as suas terras. A terra, como espaço geográfico – encontra-se assim no centro da construção das identidades coletivas, tanto palestina, como israelense. Os israelenses e os palestinos, possuem o objetivo comum de conquistar e manter, um território e uma nação soberana independente.

Bibliografia:
CAMARGO, Cláudio. Guerras Árabe-Israelenses. In: MAGNOLI, Demétrio. História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2009

DUPAS, Gilberto et VIGEVANI, Tullo. Israel-Palestina: Construção da paz vista de uma perspectiva global. São Paulo: UNESP, 2002.

VILELA, Samuel João Caetano. O papel da identidade coletiva e das questões político ideológicas no insucesso do processo de paz Israel-Palestina: uma abordagem psicossocial. Dissertação de Mestrado. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2011.

            SALEM, Helena. O que é questão palestina? São Paulo: Brasiliense, 1991.

            SHLAIM, Avi. A muralha de ferro: Israel e o mundo árabe. Rio de Janeiro: Fissus, 2004.

Proposta de Atividade

Como vimos ambos os grupos, palestinos e israelenses, possuem uma identidade coletiva própria e que esta identidade é reforçada a partir da necessidade de se demarcar as diferenças entre um grupo e outro, e que ambos os grupos utilizam-se de discursos nacionalistas e religiosos característicos de sua identidade para embasar seu desejo de um território e de uma nação soberana. A partir desta afirmação, e considerando o texto sobre identidades coletivas, observe como a identidade coletiva aparece no documentário. E produza um pequeno texto dissertativo, no qual contenha as respostas as seguintes perguntas:
- De que forma cada grupo vê o grupo rival?
- Quais são as justificativas que os palestinos e israelenses dão para embasar seu direito a Jerusalém?
- Qual é a visão dos árabes sobre a criação do Estado de Israel?
- Qual é a visão dos dois lados sobre a guerra? E de que forma o cotidiano da guerra é sentido na vida dessas crianças?
- Na parte final do documentário (Nos trechos 9 e 10 do vídeo no YouTube) as crianças israelenses e palestinas tem a oportunidade de se conhecer. Quais as visões que elas tinham sobre outro e sobre a guerra que permanecem, e quais as que mudam após esse encontro?
Documentário - Promessas de um novo mundo - Parte1 (Para assistir as outras partes é só clicar nos links que foram postados abaixo- tem um link em cada post).

Parte 2 -http://www.youtube.com/watch?v=sI1ohz94rnc