Texto
II - A questão da identidade coletiva nos conflitos árabe-israelenses
Ao analisar os conflitos percebemos que os dois
grupos que se enfrentam, tem uma identidade coletiva marcante e bem diferente
uma da outra, e que esse processo de formação de uma identidade coletiva está
intrinsecamente ligado ao próprio conflito, ou seja, o conflito serviu como
justificativa, como “mola propulsora” da afirmação dessas identidades
coletivas, mas afinal o que é identidade coletiva?
Samuel
Vilela, o autor do estudo “O papel da identidade coletiva e das questões
político ideológicas no insucesso do processo de paz Israel-Palestina: uma
abordagem psicossocial” que serviu de base para esse texto, define
identidade coletiva da seguinte forma:
“A identidade coletiva envolve um
conjunto de características centrais de um grupo, caracterizando-o e
diferenciando-o dos demais. No caso de um povo ou nação, a interação social tem
lugar num contexto cultural. A construção de significados compartilhados ou
simbólicos tem por referência, a cultura de um grupo e está ligada ao
pensamento coletivo, através da língua ou linguagem, das crenças coletivas, dos
símbolos coletivos e das ideologias que se organizam em torno de determinados
valores. Este contexto cultural consiste, portanto, num sistema de convicções,
largamente aceitas pelo grupo e suposições, que são transmitidas de uma geração
para a seguinte.”( VILELA,S.2011.p.19
)
Logo, podemos conceituar identidade coletiva por um
sistema de convicções, símbolos, crenças e ideologias que são compartilhadas
por um grupo, que caracterizam-no e o diferencia dos demais.
O conflito árabe-palestino é caracterizado pela
existência de duas identidades coletivas marcantes e bem diferentes uma da
outra, da identidade coletiva palestina, e da identidade coletiva israelense, e
dentro de cada uma dessas identidades coletivas, a palestina e a israelense,
existem vários grupos com diferentes linhas de ação (pacifistas ou violentas),
que lutam pelo mesmo objetivo, ou seja, um território. Ambos os grupos se
apropriam de discursos religiosos e nacionalistas para justificar seu direito a
terra e sua ação política.
A identidade coletiva israelense contemporânea
resulta de um longo processo de afirmação da religião judaica.
“Desde muito
cedo, que a religião foi um fator que permitiu diferenciar este povo dos demais
povos vizinhos, o que, portanto, constitui a religião judaica como elemento
primário no processo de formação dessa identidade coletiva. A identidade
coletiva dos judeus, que durante um longo período de tempo, tendeu, a ser
materializada enquanto uma religião, e não, enquanto nação encontrou no
movimento sionista a sua primeira forma de se organizar e manifestar
politicamente. O movimento sionista, que teve a sua origem na década de
cinquenta do século XIX e tinha como premissa, o regresso dos judeus ao Sião,
área que hoje equivale a Jerusalém e a criação de um Estado judaico, era
essencialmente um movimento judaico-europeu. No entanto, convém ressalvar, que
no território onde atualmente se encontra o Estado de Israel sempre existiu uma
comunidade judaica, assim como sempre se registraram fluxos migratórios de
regresso a esse território.” (VILELA,S.2011.p.23)
A identidade palestina, dos árabes que vivem na
região de Jerusálem e adjacências, passa a se fortalecer em resposta a chegada
de judeus a região, no intuito de demarcar as diferenças entre os dois povos e
o discurso de proteção as suas terras. A terra, como espaço geográfico –
encontra-se assim no centro da construção das identidades coletivas, tanto
palestina, como israelense. Os israelenses e os palestinos, possuem o objetivo
comum de conquistar e manter, um território e uma nação soberana independente.
Bibliografia:
CAMARGO, Cláudio. Guerras Árabe-Israelenses. In: MAGNOLI, Demétrio. História das
Guerras. São Paulo: Contexto, 2009
DUPAS, Gilberto et VIGEVANI, Tullo. Israel-Palestina: Construção da paz vista de
uma perspectiva global. São Paulo: UNESP, 2002.
VILELA, Samuel João Caetano. O papel da identidade coletiva
e das questões político ideológicas no insucesso do processo de paz
Israel-Palestina: uma abordagem psicossocial. Dissertação de Mestrado. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2011.
SALEM,
Helena. O que é questão palestina?
São Paulo: Brasiliense, 1991.
SHLAIM,
Avi. A muralha de ferro: Israel e o mundo
árabe. Rio de Janeiro: Fissus, 2004.